Media, nacionalismo e redes sociais

As atividades dos fãs de desporto nas redes sociais colocam desafios valiosos às Ciências da Comunicação. As suas interações permitem analisar a formação de comunidades,…

Branco Di Fátima

Célia Gouveia

Sandra Miranda


As atividades dos fãs de desporto nas redes sociais colocam desafios valiosos às Ciências da Comunicação. As suas interações permitem analisar a formação de comunidades, os interesses partilhados, o papel das federações e a influência dos atores em conjuntura específica. Assim, este artigo analisa as formas como os fãs das seleções de Portugal, Espanha, Marrocos e Irão – o Grupo B do Mundial de Futebol 2018, na Rússia – se envolveram com as suas respetivas páginas oficiais no Facebook e como as fanpages se relacionaram com os stakeholders.

O Grupo B era formado por países com valores culturais e sociais heterogéneos. De um lado, Portugal e Espanha, com ampla maioria católica, governos democráticos dentro da União Europeia, estruturas de comunicação robustas e tradição consolidada no futebol mundial. De outro lado, Irão e Marrocos, com ampla maioria muçulmana, sob governos autoritários, com acesso limitado às TIC e pouca tradição no futebol.

Nas últimas décadas, Irão, Marrocos, Espanha e Portugal também passaram a estruturar-se num sistema baseado em linguagem digital, e o quotidiano é desenhado pela lógica das redes. Nesse novo sistema, capaz de incluir todas as expressões culturais, os fãs utilizam os media para seguir os jogos, discutir os lances mais polémicos, criar comunidades baseadas em afiliações e consumir notícias sobre equipas, jogadores e entidades. Os fãs nunca souberam tanto sobre atletas e clubes, pelo feed do Twitter e Facebook, vídeos no YouTube, textos de blogs pessoais e portais especializados. Assim, quanto mais os membros da comunidade interagem com a organização, maior é a probabilidade de se considerarem parte dela (1).

No ano que antecedeu o Mundial 2018, as seleções do Grupo B veicularam 3,068 posts nas suas respetivas páginas de Facebook. A Figura 1 mostra que a Espanha liderou o ranking, com 1,305 publicações (42,5%), entre 1 de abril de 2017 e 3 de maio de 2018, seguida por Portugal (776) e Marrocos (769), com frequências praticamente idênticas ao longo do tempo, e pelo Irão (218), bem abaixo da média.

Figura 1. Publicações do Grupo B no Facebook (n = 3,068)

O desempenho iraniano pode ser explicado por longos períodos sem atividade na página, com dois intervalos de mais de 60 dias cada, em que não foram veiculados conteúdos da seleção (abril e maio de 2017 | julho e agosto de 2017). Como a censura à internet é uma realidade no país (2), é presumível que esses tenham sido meses de bloqueio das redes sociais, em prejuízo à interação dos fãs da seleção nacional. Mas independentemente do interdito, o Quadro 1 revela a preferência dessas páginas pela publicação de fotos (1,508), seguidas pelos vídeos (836), links (698) e eventos (15).

Quadro 1. Tipos de publicação do Grupo B no Facebook (%)

Essa é uma tendência comum a quase todas as equipas do grupo, com destaque para a veiculação de retratos dos atletas, do saldo dos jogos, de lances das partidas, etc. Na divisão proporcional dos resultados, o Irão tem a fanpage que mais publica fotografias, com 88,1% de todo o seu conteúdo, à frente de Marrocos (79,5%), Portugal (61,2%) e Espanha (17,6%), alimentando dessa forma a página com menor diversidade do grupo. Já os espanhóis mantêm o maior equilíbrio na hora de veicular os conteúdos, com a partilha mais igualitária de links (48,4%) e vídeos (34,0%).

O Grupo B é um exemplo do “poder de conexão das redes” (3). As páginas analisadas seguem outras 194 fanpages e estabelecem, juntas, 681 ligações. Isto acontece porque quando uma página segue outra, as informações veiculadas surgem no seu news feed e podem ser um elemento de influência na tomada de decisão. Seguir muitas fanpages também representa a construção de uma base de apoio online, já que as páginas podem partilhar uma visão de mundo. Neste sentido, Portugal é a seleção que mais segue outras páginas (71), à frente do Irão (62), Espanha (55) e Marrocos (14). A Figura 2 mostra os tipos de página, segundo categorização do Facebook, com mais conexões.

Figura 2. Páginas seguidas pelo Grupo B no Facebook (n = 194)

Os atletas profissionais, sobretudo àqueles que jogam pelas seleções estudadas, têm as páginas mais seguidas do Grupo B (52,6%), como Ashkan Dejagah ou Cristiano Ronaldo. Clubes e seleções de outros países têm um peso significativo no total (21,7%), como as equipas nacionais do Brasil, Alemanha ou Estados Unidos. As fanpages de entidades surgem em terceiro lugar (11,8%), encabeçadas por organizações desportivas do futebol, como a FIFA, UEFA ou CAF.

Surpreendentemente, os patrocinadores têm um peso menor do que se poderia esperar (5,7%), com destaque para uma combinação de empresas de diferentes setores (aéreas, eletrónicos, alimentação, energia, comunicações, etc), e não só as ligadas ao desporto (Adidas, Nike, etc). Já nos últimos lugares estão os órgãos de comunicação social (2,6%), páginas de governo (1,0%) e de estádios (1,0%).

Explorar as tendências de interação entre stakeholders parece fundamental para o planeamento de toda e qualquer ação de comunicação, sobretudo as voltadas ao desporto. Dessa maneira, também é importante mapear quais atores são mais influentes e o seu perfil diferenciador, principalmente com amostras muito diversas (atletas, equipas, entidades, media, sponsors, governos, etc). O Quadro 2 apresenta o ranking dos dez principais influenciadores do Grupo B. Para tanto foi utilizada a fórmula estatística Weighted Degree, que destaca os mais influentes com auxílio do número de interações (4).

Quadro 2. Ranking dos dez principais influenciadores do Grupo B

Os dados permitem aferir ao menos cinco conclusões sobre os atores mais influentes do Grupo B:

  • O TOP 10 é formado por um conjunto muito heterogéneo de stakeholders (media, atleta, equipas e sponsor) com um alcance potencial variável;

  • A importância da página não é indicada apenas pelo número de seguidores, mas pela capacidade de criar conteúdos percebidos como importantes para a rede;

  • Portugal tem a página mais influente da rede, com 104 de Weighted Degree, por ser percebida, no ano que antecedeu o Mundial, como produtora de conteúdos importantes para o maior número de nós;

  • O TOP 10 é constituído basicamente por organizações do universo desportivo, como FIFA, Iran National Team ou Adidas Football;

  • Apenas um ator humano, o atleta Iker Casilhas, surge no ranking, com 28 de Weighted Degree.

Os utilizadores de redes sociais passaram a fazer parte dos fluxos de informação e comunicação dos stakeholders, enquadrando ou interpretando uma mensagem através dessas plataformas. Por vezes, ampliam a divulgação de versões oficiais, mas também são capazes de resignificar as mensagens, com outros valores associados, para escrever uma narrativa própria. Daí a importância de monitorizar, a longo prazo, o que é dito sobre as marcas, os níveis de interação e a reação dos consumidores em rede.

A Figura 3 mostra os índices de envolvimento dos fãs com as seleções do Grupo B, mês a mês, com base nas interações em rede (gostos, partilhas, comentários). Para calcular o envolvimento, foi usado a fórmula de engagement do Facebook (5).

Figura 3. Envolvimento com as páginas do Grupo B (04/2017 a 04/2018)

As fanpages registaram mais de 11 milhões de interações. Portugal, na linha vermelha, apresenta quatro máximas no gráfico: junho de 2017 (participação na Taça das Confederações), outubro de 2017 (apuramento para o Mundial da Rússia, na última partida), fevereiro de 2018 (campeão europeu de futsal) e março de 2018 (duas partidas, contra o Egito e a Holanda).

O Irão, na linha verde, tem resultados já esperados ao longo do ano, dados os constrangimentos de acesso à internet no país e o contexto político religioso, com o frequente bloqueio das redes sociais. A única máxima no gráfico, em dezembro de 2017, está relacionada com a publicação de uma sondagem: “O Grupo B é o mais difícil do Mundial?”.

A Espanha, na linha azul, revela um índice baixíssimo de envolvimento, mesmo tendo uma das páginas com o maior número de seguidores do grupo. A única máxima registada, em março de 2018, está diretamente associada à divulgação da lista dos jogadores para o Mundial, e o bom desempenho frente a duas seleções então favoritas ao título: Alemanha e Argentina.

Já Marrocos, na linha amarela, possui quatro máximas no gráfico, respetivamente: em novembro de 2017 (apuramento para o Mundial da Rússia, depois de 20 anos de ausência), em janeiro de 2018 (início da campanha para sediar o Mundial de 2026), em fevereiro de 2018 (o clube Wydad A.C. conquista pela primeira vez a Supertaça de África, e é recebido com grande festa no país) e em março de 2018 (apresentação oficial da candidatura para sediar o Mundial).

A partir do cruzamento de dados extraídos do Facebook e do calendário das seleções, é plausível argumentar que esse índice de envolvimento dos fãs nem sempre acompanha os jogos propriamente ditos. Muitas vezes, aparenta oscilar de acordo com os grandes eventos e grandes feitos do país em campo, em uma demonstração de nacionalismo no desporto. Logo, numa das únicas práticas desportivas de alcance global, o apoio ou a rejeição ao desempenho das equipas é também uma espécie de teste de lealdade, estruturado no chauvinismo cultural. Dito por outras palavras, o orgulho de pertencer a um certo povo representado, contra adversários estrangeiros, pelos ‘melhores da espécie’: os atletas de alto rendimento.

 


NOTA METODOLÓGICA: A estratégia assenta numa abordagem quantitativa aos dados criados ao longo de um ano, entre 1 de abril de 2017 e 3 de maio de 2018, pelas fanpages do Grupo B. A amostra é formada por 3,068 publicações e cerca de 11 milhões de interações na rede (gostos, partilhas, comentários, etc.). Os dados foram extraídos via Application Programming Interface (API) e tratados com o pacote estatístico do Gephi. Este texto tem por base um estudo mais longo, publicado originalmente na revista Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, vol. 14, nº 3.


Referências

1) Ahn, T.; Hong, M.; Pedersen, P. M. (2014). Effects of perceived interactivity and web organization on user attitudes. European Sport Management Quarterly, 14(2), 111-128.

2) Sreberny, A.; Khiabany, G. (2010). Blogistan: The internet and politics in Iran. Londres: I.B. Tauris.

3) Castells, M. (2007). A sociedade em rede: A era da informação. Economia, sociedade e cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

4) Barabási, A. L. (2016). Network science. Cambridge: Cambridge University Press.

5) Vadivu, M.; Neelamalar, M. (2015). Digital brand management – A study on the factors affecting customers’ engagement in Facebook pages. In: Proceedings of the International Conference on Smart Technologies and Management for Computing, Communication, Controls, Energy and Materials, 71-75.

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