O envolvimento com os clubes da Primeira Liga

O futebol impôs-se ao longo do tempo como um fenómeno desportivo global. Com um alcance que extravasa claramente as quatro linhas, o futebol assume um…

Ana Cristina Antunes


O futebol impôs-se ao longo do tempo como um fenómeno desportivo global. Com um alcance que extravasa claramente as quatro linhas, o futebol assume um evidente impacto societal e social, sendo reconhecido como a mais importante e a mais largamente difundida forma de cultura popular na Europa (1) e o único idioma comum global (2).

Em Portugal, o futebol é considerado o desporto nacional (3) e que mais move e mobiliza os portugueses. Antes de mais, porque gera emoções. E, em muitos casos, e para muitas pessoas, emoções fortes ou mesmo paixões e ódios. E também porque é, invariavelmente, um fenómeno social. Cada jogo de futebol constitui um acontecimento social, que ganha sentido quando é partilhado, discutido, comentado, examinado frequentemente até ao mais pequeno detalhe, no estádio e fora dele, antes, durante e após o jogo.

Mas também neste domínio, tal como em tantos outros, a pandemia COVID-19 veio trazer um conjunto de condicionantes a este desporto e ao modo como os adeptos se relacionam com o seu clube de eleição e expressam as suas emoções, reações e pontos de vista.

A primeira vaga da pandemia, em março de 2020, levou a uma suspensão das competições desportivas um pouco por todo o mundo, incluindo Portugal, onde a Liga Portuguesa de Futebol Profissional decidiu a 12 de março de 2020 pela suspensão total dos jogos da Primeira Liga por tempo indeterminado. A retoma do campeonato português só se viria a verificar cerca de três meses mais tarde, a 3 de junho de 2020 e apenas para a Primeira Liga, por questões ligadas à sobrevivência financeira do futebol profissional. Mas este regresso do principal escalão do futebol português teve um sabor amargo-doce para os adeptos, pois muitas foram as alterações introduzidas em nome da saúde e segurança de todos. Entre outras mudanças, as dez jornadas e 90 jogos remanescentes para a conclusão da temporada 2019-2020 da Primeira Liga de futebol foram jogados à porta fechada, sem público nas bancadas dos estádios.

A temporada 2020/2021, que para a Primeira Liga teve início a 18 de setembro de 2020 não trouxe alterações a este panorama. Pese embora a experiência realizada a 3 de outubro do ano transacto no Estádio de São Miguel (em Ponta Delgada, Açores), num jogo que opôs o Gil Vicente ao Santa Clara e onde, pela primeira vez depois do início da pandemia, se permitiu a presença de adeptos no estádio, até um limite máximo de 10% da sua capacidade (1000 espectadores), os restantes jogos da Primeira Liga não voltaram até à data a contar com público no estádio.

Face a esta nova realidade, que continua até aos dias de hoje a ser ensombrada pelas sucessivas vagas da pandemia COVID-19, clubes e adeptos voltaram-se para novos territórios para manterem viva e acesa a chama do futebol. Na ausência de um espaço físico onde os clubes possam acolher os fãs, permitindo não apenas que estes assistam ao espetáculo proporcionado pelo jogo, mas também fortalecer a identificação com a equipa e estreitar os laços que os ligam ao seu clube de eleição, os clubes profissionais de futebol da Primeira Liga portuguesa apostaram na comunicação digital, reforçada através dos social media, nomeadamente das redes sociais digitais oficiais dos clubes. De igual forma, os adeptos, que já marcavam presença no território digital para se expressarem e se relacionarem, para comungar ideias, pontos de vista, afetos e sociabilidades, ao serem impossibilitados de frequentar os estádios de futebol, viram nos social media um importante canal de comunicação com o clube, bem como com os jogadores e com outros adeptos.

A relação entre o desporto e as redes sociais digitais tem vindo a ser equacionada sob diversos ângulos e perspetivas. Entre outros dividendos, apurou-se que estas plataformas digitais são vitais para fortalecer um sentido de comunidade e para a criação de um vínculo emocional entre o clube e os seus seguidores (4). As organizações desportivas procuram sobretudo beneficiar dos social media como plataformas de engagement dos seus adeptos (5). Nesse sentido, as redes sociais digitais surgem como plataformas que permitem a interação e comunicação e fortalecem a relação e o envolvimento entre os adeptos e os clubes de futebol.

No âmbito da sua missão e atividade, o Laboratório de Cultura Digital e Desporto (CDESLab) tem vindo a desenvolver diversos estudos que procuram examinar as diferentes plataformas de comunicação no desporto e o seu papel na sua relação com os adeptos, atletas, clubes, organizações e sociedade. Entre as análises realizadas, conta-se a análise das publicações feitas nas redes sociais digitais pelos clubes profissionais de futebol na 87.ª edição da Primeira Liga, correspondente à presente temporada 2020/2021. Neste artigo traçamos os principais resultados relativos às publicações d’”Os Três Grandes” – expressão que tradicionalmente designa os três principais clubes de futebol em Portugal: Sport Lisboa e Benfica (SLB), Futebol Clube do Porto (FCP) e Sporting Clube de Portugal (SCP) – e, agregadamente, aos restantes clubes da Primeira Liga no Facebook desde o início da temporada até ao final de outubro de 2020, analisando os níveis de envolvimento que estas geraram.

De entre as muitas possibilidades de análise iremos focar-nos numa análise quantitativa. De acordo com os dados obtidos no canal Facebook e considerando o período compreendido entre 18 de setembro e 29 de outubro de 2020 foram feitas 1882 publicações nas páginas oficiais dos clubes de futebol da Primeira Liga no Facebook. Verifica-se uma distribuição razoavelmente equitativa dos posts por semana (geralmente apresentando um número superior a 300 publicações/semana), excetuando a semana correspondente à quarta jornada, em que se registam 189 publicações. O maior número de posts foram registados nas últimas semanas analisadas, respetivamente nas semanas em que se jogou a 6ª (367 publicações) e na 5ª (352 publicações) jornadas, embora da análise evolutiva não se perspetive uma tendência crescente ao longo das jornadas (veja-se a Tabela 1).

Especificamente considerando “Os Três Grandes”, constatamos que o SLB e o SCP vão alternadamente, semana a semana, partilhando o primeiro lugar do pódio relativo ao maior número de publicações nesta plataforma digital, como pode ser observado na Tabela 1. Comparativamente, o FCP parece apostar com menos frequência que os seus congéneres na comunicação via Facebook com os seus fãs.

Tabela 1. Número de publicações nas páginas oficiais dos clubes da Primeira Liga até à semana em que se jogou a 6ª jornada da temporada 2020/2021

É ainda de registar que o peso conjunto das publicações do SLB, FCP e SCP no número de publicações total dos clubes da Primeira Liga no Facebook vai aumentando ao longo das jornadas (de 6,7% na semana em que se jogou a1ª jornada até 17,4% na semana correspondente à 6ª jornada), mas sendo sempre inferior a um quinto do total de publicações. Estes resultados sugerem uma clara aposta dos restantes clubes da Primeira Liga na comunicação digital através desta plataforma.

O Gráfico 1 espelha as reações dos fãs às publicações feitas nas páginas oficiais dos clubes de futebol da Primeira Liga no Facebook ao longo do período sob análise. Os resultados evidenciam o elevado envolvimento dos fãs, já que as centenas de posts de cada semana originam entre duas a três centenas de milhar de reações, indiciando que esta plataforma digital é um dos canais privilegiados pelos fãs para comunicar e interagir com o clube.

As semanas correspondentes às jornadas 3 e 5 foram as que suscitaram maior número de reações (respetivamente, 320817 e 311647). Em contraponto, a semana em que teve lugar a 4ª jornada, onde se registou o menor número de publicações, foi também aquela em que se verificou menor número de reações (190 144), resultados que podem, porventura, ser devidos à ocorrência, durante essa semana, de dois jogos da Seleção Portuguesa para a Liga das Nações que mobilizaram a atenção dos adeptos. Este conjunto de resultados sugere que uma maior frequência, quantidade e continuidade na comunicação digital via Facebook mobiliza mais os fãs, permitindo manter um diálogo continuado entre clube e fãs.

Gráfico 1. Reações às publicações dos clubes de futebol da Primeira Liga nas suas páginas oficiais no Facebook (até à semana correspondente à 6ª jornada da atual temporada)

A análise focalizada n’”Os Três Grandes” revela que é o FCP que tendencialmente parece colher menor expressividade no número de reações no intervalo temporal em questão. Embora o SLB suscite maior número de reações nas semanas das duas primeiras jornadas, é o SCP que a partir da semana em que se jogou a jornada 3 galvaniza mais os seus adeptos e elícita maior número de reações, como é visível no Gráfico 1. É aliás de notar que na semana correspondente à jornada 6 o número de reações às publicações do SCP no Facebook (126227) é sensivelmente duas vezes superior ao dos restantes clubes (69432), enquanto as reações aos posts do Benfica (57073) quase se aproximam dos valores obtidos pelo conjunto de quinze clubes constante da Primeira Liga de futebol.

Entendendo os comentários como uma das principais métricas dos níveis de envolvimento no Facebook, constatamos, através de leitura do Gráfico 2, que estas publicações geram um elevado número de comentários, embora se verifique uma elevada variabilidade nas jornadas em apreço, porventura devido ao tipo de conteúdos dos posts. Com efeito, este valor é significativamente maior nas semanas em que se jogou as jornadas 5 e 6 (em que são registados no total, respetivamente 22215 e 19598 comentários) comparativamente com a semana que correspondeu à jornada 4, com menor número de comentários (2166), registando um valor dez a onze vezes menor que o apurado nas jornadas imediatamente seguintes. O conjunto global de resultados aponta para uma elevada participação e envolvimento gerado pelas publicações destes clubes. O modelo COBRA (6) ajuda a perspetivar e compreender com maior clareza estes resultados. Segundo este modelo, os gostos (likes) correspondem ao nível mais baixo de engagement, enquanto as partilhas e os comentários, ao pressuporem uma participação e contribuição ativas por parte do utilizador, traduzem níveis mais elevados de engagement. À luz deste modelo podemos afirmar que estas publicações alimentam o debate entre as partes, gerando elevados níveis de envolvimento.

Gráfico 2. Comentários às publicações dos clubes de futebol da Primeira Liga nas suas páginas oficiais no Facebook (resultados apurados até à semana em que se jogou a 6ª jornada da atual temporada)

Examinando com maior detalhe os dados obtidos relativamente ao SCP, ao FCP e ao SLB constata-se que os níveis de envolvimento gerados pelos três clubes são significativamente superiores a partir da semana correspondente à 5ª jornada (inclusive). Com efeito, enquanto nas semanas relativas às quatro primeiras jornadas o número de comentários oscila entre os 50 (FCP – semana em que se jogou a 4ª jornada) e os 1883 (SCP – semana em que se jogou a 3ª jornada), a partir da semana em que se jogou a 5ª jornada o número de comentários mais baixo é de 3090 (FCP) e o mais elevado 6133 (SCP). Para os restantes clubes é nas semanas correspondentes às 5ª e 4ª jornadas, respetivamente, que foi gerado maior e menor envolvimento no Facebook. Para finalizar, uma análise atenta dos resultados obtidos indica claramente que os “Os Três Grandes” alcançam níveis muito elevados de envolvimento, com casos em que chegam em média a registar 500 comentários por publicação (como é o caso do FCP na semana em que se jogou a 5ª jornada).

Em suma, os social media, em particular o Facebook, aparentam ser territórios digitais onde os clubes de futebol da Primeira Liga tem vindo a apostar para manter o fluxo comunicacional com os seus adeptos, gerando nestes forte adesão e envolvimento. Atendendo a que o envolvimento gera, entre outros efeitos, lealdade, confiança e empenhamento relativamente a uma marca (7), uma aposta continuada destes clubes na comunicação digital com os seus fãs através desta plataforma pode comportar dividendos positivos.

 


NOTA METODOLÓGICA: Os dados do texto foram extraídos de forma automática via Facebook Graph API no período compreendido entre final de setembro e início de novembro de 2020. Para esta extração, considerou-se o ID das fanpages dos clubes de futebol da Liga NOS. O trabalho de extração, tratamento e visualização de dados é de autoria e responsabilidade científica do CDESLab (ESCS-IPL).


Referências

1. Sonntag, A., & Ranc, D. (2015). Colour? What colour?: Report on the fight against discrimination and racism in football. Paris: UNESCO.

2. Elias, N., & Dunning, E. (1986). Quest for excitement: Sport and leisure in the civilizing process. Oxford: Blackwell.
3. Sobral, F. (2017). Futebol, o estádio global. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.

4. Filo, K., Lock, D., & Karg, A. (2015). Sport and social media research: A review. Sport Management Review, 18(2), 166-181.

5. McCarthy, J., Rowley, J., Ashworth, C., & Pioch, E. (2014). Managing brand presence through social media: The case of UK football clubs. Internet Research, 24, 181–204.

6. Muntinga, D. G., Moorman, M., & Smit, E. G. (2011). Introducing COBRAs: Exploring motivations for brand-related social media use. International Journal of Advertising, 30(1), 13-46.

7. Grégoire, Y., Tripp, T. M., & Legoux, R. (2009). When customer love turns into lasting hate: the effects of relationship strength and time on customer revenge and avoidance. Journal of Marketing, 73(6), 18-32.

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