#Democracia(nem)Sempre: golpe, política e futebol

O dia 31 de março de 1964 foi o quando se deu o golpe militar no Brasil, colocando o país numa ditadura. Durante os 21…

Fernando Vannier Borges


O dia 31 de março de 1964 foi o quando se deu o golpe militar no Brasil, colocando o país numa ditadura. Durante os 21 anos do regime, o futebol, através de clubes, atletas e federação estiveram envolvidos em vários acontecimentos de apoio ou de contestação aos militares. Passados 57 anos deste marco da história do Brasil, é interessante ver de que maneira os clubes do país assinalaram a data nas suas páginas nas redes sociais.

O campeonato brasileiro de primeira divisão conta com a participação de 20 clubes. Em 2021, o “Brasileirão” contará com as seguintes equipas: América Mineiro, Athletico Paranaense, Atlético Goianiense, Atlético Mineiro, Bahia, Ceará, Chapecoense, Corinthians, Cuiabá, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Juventude, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Santos, São Paulo e Sport. Serão analisados os posts nas páginas oficiais dos clubes, no dia 31 de Março de 2021, no Facebook e no Twitter.

Do total de 20 clubes analisados, 7 fizeram referência a ditadura ou valores democráticos, enquanto os restantes 13 não assinalaram a data do golpe militar de forma alguma (ver quadro). Em relação às mensagens dos 7 clubes, é de referir que os posts do Facebook apresentam o mesmo conteúdo dos tweets nos canais oficiais do Twitter dos clubes, com os mesmos textos, imagens e hashtags. Esses 7 clubes foram: Atlético Mineiro, Bahia, Corinthians, Flamengo, Fluminense, Fortaleza e Internacional.

Atlético Mineiro e Corinthians foram os clubes que deixaram mais claras as suas posições políticas a favor da democracia e contra a o regime militar instaurado em 1964. Ambos usaram fotos de arquivo, de momentos que os seus atletas se posicionaram contra o regime militar brasileiro. No Atlético Mineiro, o destaque foi dado a Reinaldo, avançado da equipa que celebrava os seus golos com o punho cerrado para o alto, em clara alusão ao movimento Black Panther. Reinaldo era um atleta com um claro posicionamento político que passou a defender eleições diretas a partir de 1977, mas que entretanto teve a sua carreira na seleção prejudicada por causa disso.

Nas redes sociais do Corinthians, o clube colocou uma foto da época que ficou conhecida como a “Democracia Corinthiana”. Liderados pelo jogador Sócrates, a equipa se manifestava politicamente antes em suas partidas, com faixas e com mensagens estampadas na camisa, estimulando a participação democrática em eleições e alguns dos jogadores também estava presentes nos comícios pelas eleições diretas.

Bahia e Internacional abordaram o tema de um modo que focou mais na realidade interna do clube. Com um vídeo institucional, o Bahia exaltou as recentes mudanças internas que tornaram o clube num espaço mais democrático e com mais participação dos seus sócios na vida política do clube. O Internacional também celebrou a sua história popular e a sua grande massa associativa que participa nas eleições do clube.

Fluminense e Fortaleza apelaram ao aspeto popular e participativo do futebol para celebrar a democracia e condenar a ditadura. O tricolor do Rio de Janeiro citou parte da letra da música Roda Viva, da autoria de Chico Buarque, ilustre adepto do clube, que faz parte da peça de teatro homónima que era um dos símbolos de resistência à ditadura militar brasileira. O tricolor cearense apostou na enfase aos direitos dos torcedores em analogia à população para pedir “Ditadura nunca mais”.

Por fim, o Flamengo apostou numa linha mais minimalista, apenas com as palavras e a hashtag #DemocraciaSempre, sem mencionar a ditadura.

Além da análise de conteúdo de cada mensagem, há um elemento de comunicação estratégica a ser analisado nessas publicações do Facebook e do Twitter. Na maior parte de gabinetes de comunicação, minimamente organizados, haverá um grande calendário anual com datas marcantes a serem comemoradas ou assinaladas para marcar a presença nas redes sociais. O dia 31 de março, para o Brasil, é uma data marcante e significativa da história nacional e deverá constar de qualquer calendário. A falta de publicação nesta data denota mais uma escolha de posicionamento do que falta de recursos humanos para a gestão das redes sociais do clube, como é possível notar em vários dos clubes que no dia 31 celebraram aniversários de antigos jogadores.

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