Um derby visto a partir do Twitter

A história do futebol é uma história de rivalidades e de oposição. No contexto português, este processo é patente pela centralidade mediática e cultural do…

Branco Di Fátima

Célia Gouveia


A história do futebol é uma história de rivalidades e de oposição. No contexto português, este processo é patente pela centralidade mediática e cultural do jogo como produtor de identidades intensas e profundamente sentidas, tanto a nível nacional como local (1). Este estudo centra-se num derby entre Benfica e Sporting, a 11 de dezembro de 2016, e a atividade gerada em torno do evento no Twitter.

Atletas, federações, ligas, clubes, sponsors, meios de comunicação e fãs de futebol utilizam frequentemente o microblog para comunicar experiências, estabelecer vínculos, relações comerciais e formar comunidades de valores partilhados. Essa tendência revela um momento histórico assente na cultura dos laços sociais mediados, como ação conjugada de perfis em rede (2).

Como qualquer derby, Benfica e Sporting foi um catalisador de paixões e de frustrações intensas. Levou ao estádio milhares de fãs, a melhor assistência da época em jogos da Liga Portugal. Porém, o foco de reflexão ultrapassa os momentos vividos no estádio, pelos cerca de 63 mil espectadores, e pode ser interpretado a partir das redes sociais.

A Figura 1 indica questões associadas, respetivamente, à disposição e à cor atribuídas aos atores que se envolveram com o jogo no Twitter. Dada a própria característica polarizada do acontecimento monitorizado, surgem dois grandes clusters claramente identificáveis que ocupam toda a zona central do grafo: vermelho e verde.

Figura 1. Grafo do derby com base nas queries Benfica e Sporting. Fonte: Twitter API

Perfis que tweetaram ou retweetaram a query Benfica foram alocados na comunidade vermelha. Já os que mencionaram Sporting ficaram na comunidade verde. Ainda é possível identificar pelo menos dois agrupamentos periféricos: o hub azul (a comunidade gerada em torno do jornalista desportivo James Fielden) e os nós de outras cores ou cinzas (chamados, neste estudo, de descomprometidos). De forma geral, o grafo é uma representação visual das 39.540 mensagens publicadas no Twitter por 18.710 contas.

A grande maioria dos perfis incluídos nas comunidades vermelha e verde são a expressão máxima dos seus pontos de vista – ser do Benfica versus ser do Sporting. No fundo, são perfis que apreciaram o mesmo evento desportivo por pontos de vista opostos, criando, assim, a sua própria cosmologia afetiva do acontecimento. Quanto maior o cluster, maior a probabilidade de pautar temas na rede e levá-los para outros nós dispersos no microblog: os descomprometidos.

Os dois clubes em contenda têm pesos diferentes quanto à sua massa de adeptos e simpatizantes, o que se reflete no número de perfis integrantes dos clusters e no fluxo total de mensagens de cada agrupamento. Os 8.905 perfis integrantes do cluster vermelho (47,1%) produziram 58,2% do fluxo total (23.137 mensagens), ao passo que os 5.660 perfis do cluster verde (29,9%) geraram 28,9% (11.498 mensagens).

Enquanto, na média ponderada, cada nó vermelho tweetou ou retweetou 2,6 vezes, cada nó verde publicou 2,0. Com base nas investigações de Jo Williams, Robert Heiser e Susan Chinn, é possível categorizar os perfis pelo volume de mensagens partilhadas (3). De um lado, os posters, que ativamente alimentaram fluxos dialógicos e sustentaram a utilização do Twitter enquanto media social. De outro, os lurkers, que domesticaram a plataforma essencialmente como media informativo e incorporaram o papel de testemunha do espetáculo alheio.

Os resultados ficam ainda mais evidentes quando o grafo é dividido em partições. As Figuras 2 e 3 apresentam as sub-redes vermelha e verde.

Figuras 2 e 3. Grafos individuais de Benfica (vermelho) e Sporting (verde). Fonte: Twitter API

A comunidade benfiquista, organizada em torno da discussão do derby, é mais compacta e enfrenta um risco menor de ser desintegrada. Na comunidade, o núcleo é visivelmente maior e é possível argumentar que as informações viajam com maior velocidade, pois, em geral, os nós estão grandemente interconectados. A comunidade sportinguista, por seu turno, é mais dispersa e menos interconectada, com fluxos comunicativos potencialmente mais lentos, e com a possibilidade de se fragmentar com maior facilidade.

Essa reflexão é corroborada por um conjunto de métricas de rede, baseadas na Teoria dos Grafos: Average Degree, Average Weighted Degree e Graph Diameter (4). Em todos os contextos analisados, a comunidade Benfica tem mais peso no Twitter (Quadro 1).


Quadro 1.
Métricas dos grafos relativos às comunidades clubísticas

O Benfica também teve os três primeiros perfis com maior Weighted Degree (Grau Ponderado), ou seja, o número médio de conexões com outros utilizadores: @TopoSul92 (1906), um perfil afeto à claque No Name Boys; @SLBenfica (1464), página oficial do clube; @InformGlorious (1459), conta gerida por fãs. O primeiro perfil declaradamente do Sporting aparece apenas em oitavo lugar, com a página oficial do clube: @Sporting_CP (616).

De certa forma, o Weighted Degree indica a capacidade comunicativa dentro de um sistema. Quanto maior o grau de um nó, maior será a sua influência potencial sobre os atores da rede, seja por tweetar outros perfis ou por ser retweetado. Ao somar mais entradas e mais saídas de mensagem, torna-se um importante produto e produtor de um ponto de vista.

Cada perfil exerce assim um papel complexo na constituição de um ecossistema comunicativo em rede. Enquanto os nós centrais do grafo são vistos com canais de informação, nós periféricos tendem a trazer para a rede assuntos alheios ao tema principal.

Perfis com graus de centralidade elevados estão interconectados entre si, ou seja, compartilham, auto-reforçam e auto-regulam pontos de vista. É o mesmo que dizer que @TopoSul92 retweeta @InformGlorious. Eles são parceiros na rede. No entanto, há um ator que consegue quebrar um pouco a hegemonia dos perfis afetos aos clubes (Figura 4).

Figura 4. Hub de @James_Fielden. Fonte: Twitter API

James Fielden é um jornalista desportivo sediado em Londres, especialista no comentário desportivo, com 9.595 seguidores no microblog. Tweeta em inglês. Também é retweetado por perfis anglo-saxónicos. Durante a partida entre Benfica e Sporting, ele gerou fluxos comparáveis com nós ou perfis importantes dos clusters vermelho e verde.

Fielden publicou às 15h50, do dia 11 de dezembro de 2016, um comentário de humor sarcástico: “Quando você pensa que o futebol já chegou no pico, o Benfica sai de campo através de um check-in da Emirates após o aquecimento” (tradução nossa, Figura 5). A Emirates Airlines é um patrocinador de referência na indústria do futebol. Na época, além de ser o principal patrocinador do Benfica, patrocinava também clubes como o Real Madrid, Arsenal, AC Milan, Paris Saint Germain etc.

Figura 5. Tweet de @James_Fielden sobre o derby. Fonte: Twitter

A mensagem teve mais de 3.400 retweetes em questão de minutos. Fielden conectou à sua volta nós dispersos no microblog que, na grande maioria, não se relacionavam com outros perfis. Eram descomprometidos com os pontos de vista vermelho e verde. Embora tenha sido retweetidado por perfis do Sporting, o jornalista inglês não conseguiu contaminar a generalidade da rede, sendo visível o cluster minoritário constituído em torno do seu perfil.

Fielden introduziu uma nova pauta na discussão do derby, mas o seu ponto de vista teve um alcance limitado. Em hipótese, ele até poderia ter produzido o mimetismo necessário para a transformação do discurso, mudando, assim, a pauta da discussão. Nesse caso, não apenas para aquilo que se passa estritamente dentro de campo, mas sim para questões económicas, políticas e sociais.

Em geral, os perfis do derby no Twitter organizaram-se em torno das relações de poder, por norma, um campo de disputa num ambiente em rede. Também seguiram princípios estruturantes de homofilia clubística, o que sugere que o elo afetivo com um dado clube constitui um elemento motivacional para interagir na rede mais importante que um interesse generalista pelo futebol.


Nota Metodológica: Este estudo centrou-se no derby Benfica e Sporting, realizado a 11 de dezembro de 2016, no Estádio da Luz, a contar para a 13ª jornada da Liga. Para a extração de dados, utilizou-se o Flocker, um programa informático capaz de se conectar à Interface de Programação de Aplicação (API) do Twitter, gerando redes de tweets e de retweets associados pelo emprego de hashtags e palavras-chave. A recolha de dados, realizada entre 17h55 (cinco minutos antes do início do desafio) e 19h45 (cinco minutos depois), reuniu 39.540 mensagens criadas por 18.710 perfis associados pelas queries Benfica e Sporting. Para a análise de dados, utilizou-se o conjunto de métricas, estatísticas e layouts de espacialização do Gephi: i) Modularity – Emprega cores diferentes para cada um dos clusters da rede; ii) Force Atlas 2 – Aproxima os perfis que mais interagiram dentro dos clusters; iii) Yifan Hu – Destaca os clusters dentro da rede e das sub-redes; iv) Weighted Degree – Destaca os atores com maior número de conexões e os principais hubs da rede. Este texto tem por base um estudo mais longo, publicado originalmente na revista Observatorio (OBS*), vol. 12, nº 2.


Referências

1. Mariovoet, S. (1998). Aspetos sociológicos do desporto. Lisboa: Livros Horizonte.

2. Malini, F. (2016). Um método perspectivista de Análise de Redes Sociais: cartografando topologias e temporalidades em rede. XXV Encontro Anual da Compós, Universidade Federal de Goiás, (1-30). Goiania.

3. Williams, J., Heiser, R., & Chinn, S. (2012). Social media posters and lurkers: The impact on team identification and game attendance in Minor League Baseball. Journal of Direct, Data and Digital Marketing Practice, 13(4), 295-310.

4. Barabási, A. L. (2017). Network science. Cambridge: Cambridge University Press.

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